O único capítulo (exatamente no meio do livro) que não é escrito pelo narrador.
retrato da retratada quando jovem
Sempre disse presse sentimental queu não estava mais lendo aquele lindo livro de poemas do Baudelaire com tradução do Guilherme de Almeida quandele entrou no bar e eu já reparava naquele olhar perdido de poetinha do interior bebendo caphé e fumando ora sem tragar ora tossindo como se fosse virgem do olhar, rindo porque começou a tocar uma música com o documento humano-musical que era a voz da Billie Holiday e que ele pensava conhecer sozinho. Quando ele saiu sem me escrever e nem se despediu com arroubos de linguagem poética, eu já estava dedicando-lhe um poema com o sugestivo título de ´A um passante´, ótima alusão não só ao Poeta mas à esta cidade na qual eu já estava soterrada de não-cor e da qual, eu sem querer, com os pés, já estava me despedindo. Não sei porque continuei naquele inútil e embriagante cursinho de quinta-feira-vinho-no-bar, porque talvez minhas desilusões tenham amortecido com beijos e a literatura que ele almejava amar. Em certo sentido, eles me salvaram. Não gostei muito de letícia muito menos em letra minúscula que achei, no mínimo, demodé (mas também me lembrava de e.e.cummings: poeta esquecido e querido) e quele defendia brincando quera uma luta lingüística contra a idealização romântica (sim, um romântico que desconfia do romantismo/ ecos de Truffaut). Não à toa que o Carlos sempre o chamava de ´poeteiro´ ou de ´o último tuberculoso da metrópole´, fanfarrão irresponsável quesse amigo tão querido sempre foi, o que embalava nossas festas concorrentes da responsabilidade. Mas o engraçado é que me emaranhei nessa personagem, um pouco diferente de mim, principalmente nos cabelos: mas que aprendi a gostar inventando de vadiar a lá Anaïn Nin em dias cos trópicos subiam nas peles e as noites nasciam pós carnalidades-carnavalescas. Ou a fixação pela Argentina (ele acabou conhecendo os escritores chilenos só mais tarde) e aquele lance dele querer ser escritor por causa do Julio Cortázar e do terno o cigarro Macedônio Fernandez ´o olhar penetrantemente lítero-existencial´ Paris: a famosa photo mítica: havia momentos que amava mais o amigo que o amante, debruçada que ficava, olhando o brilho nos olhos dele falando dos escritores que mudaram sua vida- modo de escrever: minha mãe me disse que se apaixonou por papai quando ele disse que o sonho dele era largar o emprego e montar uma banda de rock (coisa nunca feita). Não posso também entrar em muitos detalhes de nossa vida romanesca ou dos meninos que na verdade se desdobravam em mais à tangente. Este livro não é meu e ao escrever tudo isso tenho certeza dele ter mudado alguma coisa: ideologia de ficcionalizar até os bons-dias e abraços em esquinas. Também não sei até aonde ele vai com essa empreitada talvez sem futuro próximo (caberá nele mais livros? mais amores?), malas prontas questou; ou com que cores finais ele me pintará, pois lágrimas são transparentes.
(ainda o espero em Buenos Aires)
O mais importante, mais do que virar personagem e sair dançando nas chuvas de grafite ou de água ou de dor é saber o quão importante esse moleque bonito (a seu jeito) e engraçado foi é será pra mim: eterna pequena musa de pequeno livro escrevinhado como só eu vi com o sangue de noites novas. Essa capa com a tradução em espanhol não é muito bonita e eu agora espero o caphé lendo o livro dele. Meu.
 
Escrito por Leo às 19h21
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