amarcord

           

            A memória é uma puta, salvadora do mal, porém, não lembro se foi naquela naiti ensolarada de ritmos que o Eduardo, que certamente nasceu no século vinteedois, lançou a campanha publicitária: ´falte daula e vá ao cinema´, festejada nos quatro cantos do mundo da amizade na cidade, comentando que no meio tempo era necessário matar a família, e quinté uma artista plástica de olhar roseado quele beijara numa festa ah sei lá por aí, fez umas pichações modernosas na cidade, sempre palco de vanguardas: burras e inteligentes, com a frase-hino, principalmente quandestreou com cópia nova e pessoas-não-comendo-pipoca-e-abrindo-coca-colas-e-falando-ao-celular, o filme do Fellini que minha tia mais gostava: Amarcord, apenas lembrando das notas pairando da música do Nino Rota que deixavam o mundo um lugar melhor.

            Olhei de soslaio pra letícia, Carlos e Eduardo que esboçavam sinceras lágrimas que voavam pela sala escura junto com as notas que agora saíam da tela e que faziam o Eduardo querer ser diretor de cinema italiano fase áurea, quando virei e letícia segurando minha mão com força cheguei ao pé douvido dela e balbuciei romanticamente ridículo: se um dia casarmos numa biblioteca tocará essa música, ela virou com aquele sorriso de covinhas tortas, como que pedindo pra ser beijada porque sabia que naquele momento cum beijo eu conheceria mais sobre ela do quela mesma, conhecendo através da sensibilidade avermelhada da língua como que a outra pessoa sente pensa age trepa cheira é.

            Saímos do cinema felizes pracaralho! e poeticamente quietos: não enxugamos as lágrimas, felizes por ver um filme único, por existirmos, pelo Fellini ter existido, por termos faltado duma aula insignificante pra ver o filme, pelo Nino Rota ter composto a trilha do meu simplório casório, por sampa, talvez único lugar que nos daria aquilo, tomando o melhor capuccino do mundo, CineSesc, parados, vendo momentos cruciais de filmes brasileiros que ali pendiam na parede, sim vamos ver esse juntos, porra, o Paulo José é mesmo um puta ator, Eu vi Todas as mulheres do mundo nove vezes, Nunca houve uma mulher como Leila Diniz, Quando eu crescer quero ser o Domingos de Oliveira, me dá um beijo, essa é a cena mais bonita do Pixote, tu lembra aquela mostra que teve aqui, que que tem?, tefuder, a primeira vez que vimos Eu sei que vou te amar foi no Rio, quanduma banda passou cantando coisas de amor e o Nino Rota entrou no distinto recinto e com a sua batuta começou a ordenar que a música o ar tocasse e bailarinas saídas do mundo com olhar sério e corpo escultural e mendigos que ali dormiam levantaram-se e começaram a dançar juntos enquanto o Nino Rota se contorcia no vento criando sua matemática musical pra fazer a gente ser um pouco mais humano e quiçá: artista, enquanto, fugaz momento, nos levantamos e dançamos com as bailarinas e os mendigos em São Paulo.

            Dançamos com as bailarinas e os mendigos em São Paulo.

 

 



Escrito por Leo às 22h24
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