confissões

 

Music, maestro, please: enquanto pensava eu no futuro, vivendo glórias perdidas, idéias insensatas, copos quebrados, divas do jazz perpetuando o ritmo do meu andar: olhar sem lua.

O champanhe de titia já sobressaia nos calços dos passos e aquela festa, brilhando nas taças, lembrava uma big party do grande Gatsby, já que, ao fechar os olhos em pensamento: senti cheirar o suave da noite dos anos 20: big bands soando, milhares de gentes, fumaças saindo de piteiras, Nova York, moças lindas de cabelo curto passando rebolando, homens de fraque e chapéu tomando uísque com dinheiro caindo dos bolsos, apenas a esperar um suicídio, saído de 29. Carreiras intermináveis.

Aquela música metálica entrava nos meus poros me invadindo de uma alegria triste, me enternecendo duma nostalgia presente nas bolhas de champanhe quera confrontada com a alegria esfuziante do Eduardo, o bon vivant ácido queu tentava ser, bramejando aos berros: é tão bom ser jovem & louco e a letícia me olhando querendo dançar que peguei na mão enluvada dela: wanna dance young lady?, (o olhar malicioso/ a mão interpretando beijos) of course, mon sieur,

 

“Os trens elétricos, repletos de gente, mergulhavam, através da chuva, rumo às cidades próximas, vindos de Nova York. Era a hora de uma profunda mudança humana, e havia algo excitante no ar.”

O Grande Gatsby, F. S. Fitzgerald

 

                  queu só pude reparar nos olhos pequenos de ilusão dela (bêbados de ternura e talvez solidão) amarrotados no seu vestido preto, os joelhos à mostra, minha melindrosa pin-up, e cheguei à conclusão quase matemática, pífia e inútil, essencial e bela: que só escrevo pra ela, que mesmo Julio Cortázar escrevia seus romances pra alguém que amava, que, lógico, toda obra literária é também uma questão de linguagem e toda aquela conversa de e sobre teóricos como bakhtin em universidades tristes sobre romances polifônicos de dostoievski, no entanto, não consigo refletir sem sangue e que minha vida, as partes inventadas incluída, só poderia existir, ser, valer pra mim pra deus pra você pra ninguém, que essa música, esse fraque & chapéu, o Eduardo beijando meninas místicas, o Carlos sumindo do enquadramento, a letícia existindo, o escritor Francis Scott Fitzgerald, os suicídios de 29, esse copo que agora seguro: só poderiam existir realmente depois de escritos, então, depois, eles seriam duas vezes, vida e linguagem, mas só vida se feita linguagem depois, numa imersão profunda, caótica e lírica de espirais artísticas, o quê querida? não, não tô pensando em nada não, a música parou e a orquestra ficou brava dentro do cedê, cores dançavam com a gente, Carlos e mais uísque sentiram-se ricos, os fraques se dissolveram, titia está viajando, Fitzgerald morreu há tempos, a noite morreu agora, letícia está cantando: morrer nunca mas ser interminável.

 



Escrito por Leo às 19h24
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