Aproveitando a popularidade conquistada, ou dada ao blog de nosotros tres, testo aqui a qualidade de um conto meu, o poeta, por assim dizer auto-estereotipado. Com humildade pouco prazerosa, solicito impressões, dicas, críticas, piadas, congratulações e whateveres...há brações...
Coco
do suicídio, um precipício.
Sentados ali, sem nada melhor a fazer, sem um penhasco que nos valesse comentários mórbidos e finalistas, decidimos nos entorpecer de fumo e vinho. Calina era a mais empolgada com o fato de sermos “jovens rebeldes, à beira do precipício de nossas próprias vidas”. Éramos, apenas e tão somente, desocupados, desamparados sob um luar que insistia em só aparecer às dez e vinte e dois da noite. Aquela visão à nossa frente era a da cidade, que com afinco e competência odiávamos, do fundo de nossos cus. Uma sensação momentânea de felicidade desnecessária me bateu: queria abraçar cada um daqueles putos e putas; Calina, Caio, Marina, Helen, Verônica, eu. Não era de muitos elogios, de afeições, mas aqueles ali eram grandes, célebres e inspiradores amigos. Às tantas, bebidas e veias saltadas, Caio vai embora. Ele gostava de provar minha aversão declarada ao sexo e à paquera com mulheres que admirava. Por isso foi embora, por que queria me ver (ou ouvir falar) brigar com meus conceitos. Malditos conceitos que sempre me corroeram de dentro pra fora, de fora pra dentro (antes?).
Escrito por cOcO às 23h34
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Pensamentos mesquinhos aquela noite ficaram dentro do carro, e no primeiro gole da motorista da noite, Helen. Alguém deveria ter um mínimo que fosse de apreço à responsabilidade, mesmo que fosse enquanto estivéssemos sob risco de morte eminente ao volante. Sabiamente, como não haveria de ser diferente em mulheres que amo, Helen, lindamente sorridente e aliviada porta à fora, golpeou sedenta e deliciosamente o vinho de nossas loucuras presentes. Mas haveriam de ser horas inócuas e meramente passageiras, se não fossem os vinhos e os fumos ilícitos e charmosos? Sim, seriam. O são em nosso tempo. Era impressionante como gritar beibe em português, ao som de Caetano, nos fazia transgressores, rebeldes em nosso tempo, solenes e impiedosos. Era intenso o negócio, não sabem o quanto. Fui eu, que ao pé do ouvido de Marina, a quem chamava Maria, Maria Olívia, nome de um dos meus primeiros amores, iniciei o assunto de nosso suicídio coletivo. Uma idéia boba a princípio, rechaçada durante alguns minutos, mas empolgada e apuradamente discutida por horas. Voltando aos nomes de antigos amores, do tempo de infância, de bem antes de lamber bucetas, a todas aquelas amigas dava nomes de amores pueris. Helen era Mariana. Verônica era Flávia. Calina era nova no grupo, ainda não tinha nome. Talvez por uma desconfiança que ainda guardava por ela. Não a negava abraços e beijos molhados em noites de solidão. Nem um sexo amigo, em festas de frustrações mútuas (mesmo por que sou homem que não nega fogo). Mas guardava por ela algo estranho. Acho que pelo fato de ter aparecido como ex-namorada de um ex-amigo distanciado por implicações femininas, implicância feminina no caso. Mulheres têm o defeito de afastar amizades intensas. Isso, digo por experiência própria, é o que nos mantinha homens, lambendo bucetas. Simplesmente para evitar o idilicismo de qualquer uma que não mereça isso de jovens tão sublimes, mas, principalmente, para não nos separar mais. Calina não tinha um nome carinhoso de um ex-amor. Talvez por não ter tido um terceiro amor antigo a ser compartilhado com ela em sussurros ao pé do ouvido. Eis aí uma desculpa ótima. Pobrezinha, tão legal e amiga e eu com mesquinharias. Decidi, a partir de tão benevolente pensamento inventar uma lembrança remota de amores infantis, e dar-lhe um nome. Ainda não decidi qual. À medida que tornávamo-nos mais vulneráveis à alvorada a discussão sobre o suicídio coletivo se intensificava. Distorcia-se e contorcia-se um Sonic Youth no som do Pálio. A engenhosidade da proposta tomou uma seriedade preocupante. Eu vibrava ao ver Calina medindo os passos de uma possível corrida para a encosta do penhasco oblíquo. Helen ria-se compulsivamente, era uma bêbada mulher à moda barzinhos de Moema. Vera observava reflexiva o penhasco. Parecia aguardar uma iluminação mágica sobre uma saída para nosso paradoxo oblíquo. Olhando para ela, e para a gente em seqüência, me lembrava da turminha do Goonies tramando uma caça ao tesouro. Mas o que queríamos era morrer, nos matar de uma vez, sem purgatório, sem sofrimento, direto, straightamente para o inferno, que era sim, o lugar dos garotos que curtiram Iron Maiden e Ac/Dc uma vez na vida. Sugeri que déssemos um grito combinado antes de cairmos. Um RRRRREEEEEIIIIIII (hey em português), para marcarmos, ou assinarmos nosso sublime gesto. Marina e sua tara vermelha entendeu o grito como – uma forma de acordar a burguesada que dormia sossegada seus sábados de taras enrustidas em sorrisos de canto cínicos, porcos. Calina queria escrever um manifesto (e se apurou nisso o resto da noite) com caco de tijolo no asfalto do penhasco. Um arremedo de carta de testamento de Kurt Cobain, só que com ar mais marginal, tijolo no asfalto, sei lá. Verinha, (ah Verinha e seu brilhantismo) deu o único palpite realmente sensato da noite, construído em anos de aulas de teoria da comunicação, semiótica e curso bem pago e aproveitado, de jornalismo. Os gritos e um pedacinho de papel no bolso de cada um, com a transcrição do grito solene RRRRRREEEEIIIIII, garantiria alguns meses de intensas e sensacionalistas matérias em jornais e telejornais, reportagens de capa e estudos desnecessários e esquecíveis da veja sobre a geração que se construiu com anos de maconha, cocaína e engajamento político. Poderíamos dar o nome a uma geração inteira de brazucas, que como nós, estão esperando um penhasco oportuno em suas vidas de olhos azuis, saias jeans e tops cor-de-rosa. Estávamos diante de nossa eternidade passageira nas prateleiras das bancas de jornais. Momento único, que eu havia inspirado. Uma vez, um homem ao meu lado no ônibus, sussurrou com um sorriso engraçado lendo um livro chamado Livro – o melhor a ser feito a uma pessoa é inspira-la. Procurei durante muito tempo, até a desistência, quem havia inspirado aquele autor de Livro naquela frase. Acho que morrerei com a sensação de estar tão próximo, mas tão longe dessa pessoa ao mesmo tempo. Calina havia sumido. Constatação feita por todos quase que ao mesmo tempo. A filha da puta poderia ter se jogado primeiro, sem a gente? E se eu estivesse brincando? Nunca me perdoaria. Não se matou, a biscate estava atrás do carro, mijando deliciosamente. Um jorro barulhento no asfalto grudento. Rimos e chutamos as possas de mijo uns nos outros por um tempo, até voltarmos ao nosso plano. Eu achava que se matar não demandava tanta sensatez e precisão. Para mim o suicídio representava um indestrutível desespero, uma acochada da vida prensada na parede. Para mim parecia moleza se matar.
Escrito por cOcO às 23h34
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Sempre fui treinado a planejar ações, estratégias e táticas. Mataria-me várias vezes se possível. Permanecer vivo era minha maior contradição. Contenho multidões de Whitman. Beijei demoradamente a boca de Calina. Depois a de Verônica, e logo a de Marina. Instantes de silêncio. Uma corrida lenta e obesa na direção do penhasco, um pulo para trás do tipo; te peguei! Fui ridicularizado miseravelmente pelas minas instantaneamente, como era praxe. Às vezes a gente erra. Mas como um bom canalha das multidões, aleguei ser uma desculpa para beija-las. Arranquei alguns risos incontroláveis. Ser canastrão como era comum em nosso tempo. Tão comum como cabelos peruca e calças jeans com all-star. Perdemos um pouco o foco e as opções de cds acabavam com o tempo e a madrugava lutava com a manhã abaixo do horizonte. Teríamos de ser rápidos. Peguei os papelzinhos. Copiei um rei em cada um deles, com letras diferentes, não necessariamente uma cópia da letra dos respectivos portadores. Distribuídos os bilhetes, Calina insistiu em sua carta no asfalto, e terminou com o RRRREEEEIIIII também. Preparamo-nos por alguns minutos, cada um do seu jeito, seu cerimonial, seu ritualismo, desnecessário a essas linhas. Pensamos em darmos as mãos, mas desistimos, pois se soltariam logo após a queda. Não me lembrava o que tinha lá embaixo, corri gritando que não iria pular, para ficarem tranqüilas. Verifiquei com olhos serrados de atenção o que havia por trás da vegetação. Era um barranco de inclinação acentuada, mas que não chegava muito perto dos noventa graus. Percebi uma acidentalidade mais para o lado direito de onde estávamos, o que nos garantiria algumas quedas sucessivas, e a garantia da morte ao chegarmos ao final. Lembrei de um poema que escrevi há um bom tempo.
Não sei se sou
Louco
Ou só
Um pouco
Fissurado em
Morrer.
Escrito por cOcO às 23h30
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Um brilhante arremedo da pose de Leminski, mas tava valendo. Não recitei para não levantar suspeitas sobre uma possível conspiração doentia minha para a morte das minas. Apontamos nosso olhar ao precipício e corremos os 150 metros que escolhemos para o caminho ao precipício. Suspirei, ainda deu tempo, antes da corrida sincronizada de dar uma olhada nos rostos de cada uma delas. Serenidade, avidez, paixão. Nada além do que sempre vira em seus rostos rosados, e sardentos, e amorenados. Corremos a passos curtos para pegar impulso no salto. Eu ainda toquei nos peitos da Calina, só de sarro. Percebi que estava completamente apaixonado por ela. Puta que pariu, mas naquela hora, em plena queda? Na pensei em mais nada naqueles segundos, a não ser em nossa possível vida a dois. Casamento em chácara, gramado, famílias separadas, altar de ferro, filhos, compras de natal, sexo às escondidas durante minha semana de férias, tatuagens, motocicletas encarnadas, papais roquenrol, amiguinhos impressionados, blá, blá, blá. Era muito supersticioso e às voltas com costumes, por exemplo esse, de pensar num “felizes para sempre” com toda mulher que me apaixono. Saltamos. Um espaço de tempo no ar. A primeira pancada no chão já deve ter me deixado inconsciente. Alguma das meninas, acho que Verinha, já deveria estar morta a essa altura. Tinha problema de coração. Se não fosse em suicídio, teria sido com a cocaína que esperávamos ansiosos para comprar com algum salário a mais que sobrasse. A segunda pancada foi de cabeça, com certeza, todo mundo pro saco. It´s just the end beibe. Daí por diante seria tolice continuar a narrativa. Estávamos mortos porra, nem Brás Cubas seria tão transgressor em 2005. Até tentaria uma conclusão de efeito, alguma moral no final das contas, só pra não fugir ao academicismo, mas num tô a fim. Tanto faz continuar ou não. A vida ainda vale, mesmo em face do maior suplício, e levanto solene o coro de mil vozes: é melhor morrer de vinho, fumo ou suicídio coletivo do que de tédio.
Escrito por cOcO às 23h29
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"a literatura é o essencial ou nao é nada". os blogues não.

Putaqueriu que coisa mais louca que aconteceu. Surpreendemente nosso estimado blogue, sempre afeito a visitas de amigos e possíveis interessados em literatura boêmia vagando por aí, foi considerado pelo UOL Blog como um dos blogs mais ´legais´ (whatever it means). Achamos ótimo, comemoramos, brindamos e escrevemos mas ficamos assustados com o número de pessoas que entrou aqui (não sei pensando o quê) só para que depois entremos nos blogues deles, teve um que quase implorou. Patético. O tipo de gente que los tres amigos on the road, burgueses cínicos e bem alimentados não gostaríamos de conhecer. Nós, que sempre fomos apaixonados pelo pesquisar solitário das bibliotecas e das punhetas literárias em mesas de bar... leiam, no mínimo, Márcia Denser, uma mulher com colhões, a musa dark e esquecida da literatura brasileira. Literatura viva. Olha o que a mulher escreveu sobre literatura no seu livro ´diana caçadora´conto-Tigresa:
"...E tudo isso quer dizer literatura: a requintada crueldade de poder observar as próprias vísceras expostas refletidas no espelho e imaginando não ser as nossas, como se este refletisse na humanidade agora - a desumanidade estará dentro de nós, como o olho cego da câmera fotográfica, as lâminas frias da cortinaque fecha e abre a objetiva, o vidro da lente, inopinadamente a sangrar, a sangrar, amigos, a sangrar, o fluxo maldito chamado literatura, a sangrar..."
Escrito por Leo às 02h45
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