Da série literaturices juvenis de botequim em noites sem fim

Descemos a rua rimbaudiamente, jovens desvairados, tirando sarro dos outros na rua, bebendo algo feito para não se lembrar e esquecendo das responsáveis chatices de segundas-feiras. Só sou feliz no meu nomadismo, entoei querendo fazer a nossa revolução das mochilas. Líamos os marginais paulistas que copiávamos ao andar: Roberto Piva, Cláudio Willer, Franceschi, Haro e outros que recitávamos de cor, pois adolescemos literariamente com esses poetas que tiravam fragmentos de sangue da pele das palavras; beijos e há braços furtivos embalavam nossos pensamentos que, mesmo ali não estando, solidificavam-se nos nossos ossos sem prestarmos atenção. A consolação não nos consolou como os cachecóis que nos protegiam dos vampiros que se perdiam nas calçadas sujas e quebradas. A cidade é e sempre foi uma merda: o que a torna colorida e bela e dos cantos perdidos, sonhos, são esses olhos virgens de desilusão que não reparam nas sujeiras das desesperanças, mas foda-se, são, ao menos, felizes pracaralho, e criam, em si, mitologias de personagens que, espero, continuar a criar no teatro deste sábado que, mesmo se perdendo na loucura desmedida de tantos sábados, fica um pouco guardado nos óculos e nas veias. Ainda tenho um pouco de medo do desconhecido e penso nas coisas antes de dormir. Ainda bem.



Escrito por Leo às 05h00
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Da série pequenas resenhas de livros que mudaram nossa vida em noites de vinho ruim

Livros que são escritos com o corpo

 

Tanto Faz de Reinaldo Moraes

 

 

{começado com Jão Gilberto/

terminado com Strokes}

             Estava com o saco cheio de Jundiaí e fui passear na biblioteca municipal. Na biblioteca sempre há meninas bonitas. Você pode pegar um livro de poesias e até puxar papo com alguma.

            Cabisbaixo, passeio pela estante de livros estáticos até cair em minhas mãos um pequeno livro chamado Tanto Faz de Reinaldo Moraes.  Vi que o livro era da editora brasiliense daquelas séries de livros dos anos 80 de escritores marginais. Me animei, minha adolescência literária foi com toda essa turma: dos beats americanos aos nossos beats. Fante na cabeça. Bukowski no copo. Kerouac na estrada. Mas esse escritor era diferente de tudo que tinha lido. Ele era todos esses escritores num só. Tinha um estilo próprio, despojado, algo diferente. E logo no primeiro livro. Tanto Faz é o ápice do niilismo literário. Uma viagem em torno do umbigo.

“Escrever só o que me pinta na cabeça quando calha da caneta estar na minha mão. Se os fragmentos formarem uma idéia de conjunto, ótimo. Senão, foda-se. Tanto faz”.

            Seu texto é repleto de referências, de estrangeirismo, de múltiplas idéias. Numa mesma frase podemos ler francês, português, inglês e haver referências exclusivas do escritor. E ainda assim o texto flui perfeitamente. Nem importa muito qual o assunto do livro. Sociólogo ganha uma bolsa de estudos e vai pra Paris, desencana da bolsa e começar curtir a vida na cidade dos apaixonados. O que importa é como ele costura todo o texto, como ele vai formatando todo jorro literário para que achemos que o texto é descuidado. O que atrai o leitor é esse descaso e ao mesmo tempo amor que o autor-narrador tem pela literatura e, conseqüentemente, pela vida.

            Reinaldo Moraes é um apaixonado. O resto sim, foda-se. Um apaixonado pelas mulheres, pela literatura, pelas bebidas, pelas drogas, pelos amigos, pelas amigas, por Paris. Tudo que seu alter-ego faz no livro é com uma paixão que faz com que nós, meros mortais que queremos um dia ser escritores, nos sintamos invejosos. É como se ele dissesse: ‘Ei, pára de escrever. Vai curtir a vida. Depois você escreve, porra’. Como diria Wally Salomão, nada de poesia antes da vida, nada de experiência vital sem escrita que a suplemente e a plenifique.

            Não há como não falar do nosso grande escritor que viveu também apaixonadamente a literatura e a vida e é referência vital, não apenas pra Reinaldo Moraes, mas pra todos escritores que vieram depois dele: Oswald de Andrade.



Escrito por Leo às 04h59
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Pode-se dizer que Oswald inventou o escritor brasileiro moderno. Vanguardista, dândi, apaixonado. Tudo o que o protagonista de Tanto Faz quer ser. Lê Miramar e Serafim por todo o livro, assim como toda frase maliciosa, irônica, entrecortada faz lembrar a prosa poética de Oswald e de todos os seus filhos literários.

“Agora, o que eu queria mesmo é uma literatura que fosse, como Torquato Neto, até a demência. E ficasse, como Chacal, entre o play-ground e o abismo. E tivesse a peraltice e o lirismo de Oswald. E o sabor coloquial do Mário de Andrade. Nem confissão, nem ficção. Conficção. Nem obra acabada, nem obra aberta. Obra à-toa”.

            Procurei mais sobre ele e descobri que escreveu mais um livro, ambientado em Nova York, Abacaxi (parece que as personas literárias de Reinaldo Moraes não gostam muito da idéia de estar em solo verdamarelo). Depois desencanou de literatura e começou escrever pra TV e cinema. Agora voltou com Órbitas dos Caracóis. O grupo de teatro Cemitério de Automovéis levou pro palco Tanto Faz e vários outros livros da literatura brasileira contemporânea, como os do Marçal Aquino, Marcelo Mirisola, da turma da Livros do Mal, etc.

“Existir se resume a torcer pra que ainda haja cerveja na geladeira”

Descubram Reinaldo Moraes. É uma experiência literária. É uma experiência de vida. Cultura. Frescura. Ruptura. Literatura.

Tanto faz.

“Vamos lá. Vamos entrar nesse boing, romance debaixo do braço, otimismo arrepiado, o que piar eu traço, “eu não sou um intelectual, escrevo com o corpo. E o que escrevo é uma névoa úmida” (Clarice Lispector). Tive um sonho roxo outro dia, acordei berrando: manhê! Cada vez menos palavras, cada vez mais frases. Olhar. Cochilar na rede co’a brisa bolindo nos pêlos do peito da gente. Abrir o olho e constatar que a noite baixou. Assobiar com os lábios molhados de cerveja. Nos olhos das mulheres mais lindas Narciso se vê refletido; por isso a beleza não o devora. Coxa na coxa, dançar um bolero de pilequinho. Esvaziar os copos, encher as amizades. Trinta anos e um romance no saco plástico. Saudades daquelas cinco horas da tarde. Literatura, a possibilidade de mentir por escrito.”



Escrito por Leo às 04h58
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