Capítulo do inédito romance de Leonardo Barbosa: "livro". Somente neste blog.
porque todo livro deveria ter
uma sessão 'on the road'
Pegamos o carro num dia ensolarado de algum dezembro perdido na memória.
“Libertação é o tema do seu livro de viagens por excelência, Serafim Ponte Grande, onde a crosta da formação burguesa e conformista é varrida pela utopia da viagem permanente e redentora, pela busca da plenitude através da mobilidade”.
Antonio Cândido, sobre Serafim Ponte Grande,
romance de O. de Andrade
No som tocava ´Nas curvas da estrada de Santos´ do Roberto Carlos, mas com a Elis cantando. A gente estava feliz pra caralho. Os olhos meus e dos meus amigos brilhavam. Porra, como é bom ter 20 anos. O verde da serra surgia e aquele sentimento de que tudo vai dar certo aparecia estampado em sorrisos maliciosos. Alguém pegou no porta-luva uma edição velha do On the Road do Kerouac e começou a ler alto. Todos queríamos ser Dean Moriarty. A Clara (uma amiga nossa do cursinho) fumava um e passava. Eu deslizei na voz da Elis e comecei a lembrar da minha mãe. Ela fazia pizza todo sábado cantando uma música do Milton Nascimento com a voz da Elis Regina, não lembro o nome, é aquela assim: “Já estou com um pé nessa estrada/qualquer dia a gente se vê/ nada será como antes/ amanhã”. Essa música me lembra da minha mãe e de pizza. Em câmera lenta de filme pipoca-americano eu olhei pros meus amigos e desejei viver aquele momento pra sempre. Viver na estrada. Olhei para eles e tive um momento de nostalgia. Não sei quem falou que a nostalgia é decadente e nós só nos sentimos assim porque assim cremos que participamos efetivamente de algo. E assim me senti: decadente, feliz, nostálgico de um momento que vivia.
Lembrei disso quando escrevia em Londres. Um apartamento velho de um amigo, um computador que só tinha Word e as ruas lá fora tristes. Eu tinha terminado de fazer uns trampos numa produtora independente, no qual esse meu amigo trampava e estava fazendo uns cursos de roteiro pra cinema e TV. Sem grana, sem amigos, sem meus livros.
Um grupo de amigos felizes e bebendo passaram cantando. Parei de escrever, tomei um gole de vinho e fiquei na janela lembrando dos meus amigos.
Há muito tempo não os via e senti aquela coisa que só nós, de língua portuguesa, sentimos: saudade. De São Paulo, das viagens, das orgias, das bebedeiras, das drogas, das discussões infinitas sobre arte, dos cinemas da Paulista, daquela menina que vi na rua linda e que nunca mais revi, do livro do Borges que me deu o mundo, daquela música dos Los Hermanos que ouvi fazendo amor com a Letícia, de Jundiaí porque lá nasci e para onde sempre volto.
Ainda amo meus amigos e ainda os vejo e ainda bebemos e ainda saímos para falar de literatura cinema música artes plásticas drogas sexo. Mas claro não é a mesma coisa. É ainda muito legal porque os amo. Mas é legal de outro jeito. É como se naquela época eu quisesse agarrar o tempo, como se eu não pertencesse a ele. Como se eu precisasse, junto com meus amigos, pegar o tempo e enfiá-lo nos meus poros.
Hoje apenas quero estar nele. Não preciso sair correndo. Sento e escrevo. Mas um dia sei que precisei sair correndo. Senão eu morro. Naquela época nós éramos aquilo.
Alguém colocou White Stripes no som do carro e seguimos (r)indo. Já dava pra sentir o mormaço da praia.
Escrito por Leo às 01h44
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