Voltemos à Argentina e ao ilustríssimo Julio Cortázar

Há 80 anos o escritor Julio Cortázar nascia e há 200 morria.

O Jogo da Amarelinha - Capítulo 7

Tradução de Fernando de Castro Ferro.


Toco a sua boca, com um dedo toco o contorno da sua boca, vou desenhando essa boca como se estivesse saindo da minha mão, como se pela primeira vez a sua boca se entreabrisse, e basta-me fechar os olhos para desfazer tudo e recomeçar. Faço nascer, de cada vez, a boca que desejo, a boca que a minha mão escolheu e desenha no seu rosto, e que por um acaso que não procuro compreender coincide exatamente com a sua boca, que sorri debaixo daquela que a minha mão desenha em você.

Você me olha, de perto me olha, cada vez mais de perto, e então brincamos de cíclope, olhamo-nos cada vez mais de perto e nossos olhos se tornam maiores, se aproximam uns dos outros, sobrepõem-se, e os cíclopes se olham, respirando confundidos, as bocas encontram-se e lutam debilmente, mordendo-se com os lábios, apoiando ligeiramente a língua nos dentes, brincando nas suas cavernas, onde um ar pesado vai e vem com um perfume antigo e um grande silêncio. Então, as minhas mãos procuram afogar-se no seu cabelo, acariciar lentamente a profundidade do seu cabelo, enquanto nos beijamos como se tivéssemos a boca cheia de flores ou de peixes, de movimentos vivos, de fragância obscura. E se nos mordemos, a dor é doce; e se nos afogamos num breve e terrível absorver simultâneo de fôlego, essa instantânea morte é bela. E já existe uma só saliva e um só sabor de fruta madura, e eu sinto você tremular contra mim, como uma lua na água.



Escrito por Leo às 11h43
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Momento Semana de Arte Moderna



 



Escrito por Leo às 11h39
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Capítulo do inédito romance de Leonardo Barbosa: "livro". Somente neste blog.

porque todo livro deveria ter

 uma sessão 'on the road'

 

            Pegamos o carro num dia ensolarado de algum dezembro perdido na memória.

 

“Libertação é o tema do seu livro de viagens por excelência, Serafim Ponte Grande, onde a crosta da formação burguesa e conformista é varrida pela utopia da viagem permanente e redentora, pela busca da plenitude através da mobilidade”.

Antonio Cândido, sobre Serafim Ponte Grande,

romance de O. de Andrade

 

No som tocava ´Nas curvas da estrada de Santos´ do Roberto Carlos, mas com a Elis cantando. A gente estava feliz pra caralho. Os olhos meus e dos meus amigos brilhavam. Porra, como é bom ter 20 anos. O verde da serra surgia e aquele sentimento de que tudo vai dar certo aparecia estampado em sorrisos maliciosos. Alguém pegou no porta-luva uma edição velha do On the Road do Kerouac e começou a ler alto. Todos queríamos ser Dean Moriarty. A Clara (uma amiga nossa do cursinho) fumava um e passava. Eu deslizei na voz da Elis e comecei a lembrar da minha mãe. Ela fazia pizza todo sábado cantando uma música do Milton Nascimento com a voz da Elis Regina, não lembro o nome, é aquela assim: “Já estou com um pé nessa estrada/qualquer dia a gente se vê/ nada será como antes/ amanhã”. Essa música me lembra da minha mãe e de pizza. Em câmera lenta de filme pipoca-americano eu olhei pros meus amigos e desejei viver aquele momento pra sempre. Viver na estrada. Olhei para eles e tive um momento de nostalgia. Não sei quem falou que a nostalgia é decadente e nós só nos sentimos assim porque assim cremos que participamos efetivamente de algo. E assim me senti: decadente, feliz, nostálgico de um momento que vivia.

Lembrei disso quando escrevia em Londres. Um apartamento velho de um amigo, um computador que só tinha Word e as ruas lá fora tristes. Eu tinha terminado de fazer uns trampos numa produtora independente, no qual esse meu amigo trampava e estava fazendo uns cursos de roteiro pra cinema e TV. Sem grana, sem amigos, sem meus livros.

Um grupo de amigos felizes e bebendo passaram cantando. Parei de escrever, tomei um gole de vinho e fiquei na janela lembrando dos meus amigos.

Há muito tempo não os via e senti aquela coisa que só nós, de língua portuguesa, sentimos: saudade. De São Paulo, das viagens, das orgias, das bebedeiras, das drogas, das discussões infinitas sobre arte, dos cinemas da Paulista, daquela menina que vi na rua linda e que nunca mais revi, do livro do Borges que me deu o mundo, daquela música dos Los Hermanos que ouvi fazendo amor com a Letícia, de Jundiaí porque lá nasci e para onde sempre volto.

Ainda amo meus amigos e ainda os vejo e ainda bebemos e ainda saímos para falar de literatura cinema música artes plásticas drogas sexo. Mas claro não é a mesma coisa. É ainda muito legal porque os amo. Mas é legal de outro jeito. É como se naquela época eu quisesse agarrar o tempo, como se eu não pertencesse a ele. Como se eu precisasse, junto com meus amigos, pegar o tempo e enfiá-lo nos meus poros.

Hoje apenas quero estar nele. Não preciso sair correndo. Sento e escrevo. Mas um dia sei que precisei sair correndo. Senão eu morro. Naquela época nós éramos aquilo.

Alguém colocou White Stripes no som do carro e seguimos (r)indo. Já dava pra sentir o mormaço da praia. 

 

 

Escrito por Leo às 01h44
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